17. Pensamentos ~ Bando 4

I.
A música da Esperanza Spalding é um escafandro em meio a enchente.

II.
A batalha mais difícil é aquela que travamos silenciosamente em nosso espírito: a de não deixar que corrompam nossa liberdade de pensamento.

III.
A realidade é brutal: não liga para as nossas frágeis narrativas – a qual nos agarramos com todas as forças para manter a ilusão de que estamos entendendo o que está acontecendo. Diante da complexidade do mundo somos náufragos lutando para sobreviver contra a imprevisível tempestade.

IV.
Jamais permita que te coloquem em um curral mental. O espírito livre se manifesta no ato de coragem de dizer: NÃO.

Muitas pessoas não entenderão e taxarão de tudo quanto é nome pejorativo. Escute com paciência e mente aberta, mas não ceda às pressões externas que te coloquem em contradição com a tua consciência.

“O talento se aprimora na solidão, o caráter na agitação do mundo.” (Goethe)

V.
Aos que me amam e respeitam: a leveza de um beija-flor.
Aos que me menosprezam e me confrontam: a firmeza de uma rocha.

VI.
Quem questiona o caráter de outra pessoa por ela pensar diferente, demonstra o caráter que tem.

VII.
Na luta contra um inimigo que desconhece você já entra derrotado. Conheça-o, da alma às armas; prepare-se em silêncio; e então quando chegar o momento: afirme-se.

VIII.
É no arado diário e solitário do espírito que brotarão os melhores frutos para oferecer aos vizinhos.

IX.
A teoria nos serve como uma descrição dos padrões da realidade, e não para moldá-la. A teoria que não sobrevive ao teste na realidade não tem serventia – e é danosa.

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16. Notas ~ Bando 4

I.
O que o misterioso pintor norueguês Odd Nerdrum busca representar em suas obras eu não sei, mas a jornada por museus em busca das referências que o inspiram se revelou duplamente valiosa: pelo refinamento da sensibilidade; e pelas questões que motivam a criação.

“Originality” are the mistakes you commit when you imitate your master.

II.
Neukomm, compositor austríaco que foi professor de música do príncipe D.Pedro, conta que recebeu um incentivo fundamental de seu mestre Joseph Haydn ao escutar:

“Lembra-te que eu trabalho há 50 anos para chegar ao ponto em que estou”.

Guardarei com carinho esse conselho.

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15. Notas ~ Bando 3

I.

Um achado!

“Aqui estão todos os discos lançados pela ‘Discos Marcus Pereira‘, selo independente de música brasileira, cada vídeo é um disco completo.

Apaixonado pela música do Brasil e em resposta ao que considerava a dominação do cenário musical brasileiro pelas indústrias multinacionais, bem como a descaracterização da música popular brasileira pela excessiva influência e imitação de grupos estrangeiros, Marcus Pereira se destacou por promover a gravação e trazer a lume composições genuinamente brasileiras, revelando assim, o mapa musical do Brasil.”

II.
Em meio a sensação de impotência e desesperança com a tragédia material e simbólica do Museu Nacional, o Dionisius Amendola traz – em suas palavras – um fecho de luz para a escuridão:

“Como recuperar algum senso de esperança depois do evento trágico da queima do Museu Nacional?

Comece cultivando a sua liberdade interior, seu ‘museu particular’: leia um poema, ouça uma música, assista um filme, termine o romance que deixou de lado…”

“(…) perder a esperança é ser coberto por um niilismo infantil que nada de bom irá gerar. Ninguém falou que era fácil cultivar a vida do espírito (…)”

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14. Notas ~ Bando 2

I.
É tentador menosprezar um aforismo pelo seu tamanho compacto. Foi com Nietzsche e Taleb que me abri para esse quase-poético gênero literário:

“Por que não se lêem mais os grandes mestres da sentença psicológica? Sem qualquer exagero: o homem culto que tenha lido La Rochefoucauld e seus pares em espírito e arte é coisa rara na Europa; e ainda mais raro aquele que os conheça e não os insulte.” (Nietzsche)

“Bem cunhado e moldado, um aforismo não foi ainda ‘decifrado’, ao ser apenas lido: deve ter início, então, a sua interpretação, para a qual se requer uma arte da interpretação.” (Nietzsche)

“Aforismos são diferentes de textos convencionais. O autor recomenda ler não mais do que quatro aforismos de uma só vez. É preferível selecioná-los aleatoriamente.” (Taleb)

Vida longa a Machado, Goethe, Balzac, Baltasar Gracián e Joseph Joubert!

II.
Se encararmos a cultura com um cultivo da nossa personalidade; na auto-educação como um esforço para superar nossa ignorância; e na felicidade como a sensação confortável de aceitar quem se é, descobriremos que é no silêncio da solidão que cultivamos nossa paz de espírito, por tanto, é preciso proteger esses momentos preciosos com o empenho de um sentinela ao proteger o sono de uma criança.

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13. Pensamentos ~ Bando 3

I.
Para aprender a ficar junto, antes, é preciso aprender a ficar sozinho.

II.
O amor que emano é proporcional ao que cultivo para mim mesmo.
Não se pode dar o que não se tem.

III.
Tive meu primeiro sonho poético. Nele, uma senhora disse-me algo assim:

“Os versos feitos no Brasil
ou são de uma inocência infantil
ou tem um quê de 1º de abril.”

Vou tomar como uma auto-crítica.

IV.
Qualquer conversa sobre políticas públicas só faz sentido se, de início, trouxer as respostas para estas duas perguntas:

Quanto custa? Quem paga?

V.
Qualquer aumento ou criação de imposto que não seja aprovado em referendo popular é sacanagem – pra não dizer que é roubo.

IV.
Nossa personalidade é nossa fortaleza.

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12. Notas ~ Bando 1

I.
Herberto Sales, em sua memórias, ensina-nos o valor em buscar nos clássicos o ponto de partida para as nossas criações: “Se os inovadores não levantam o seu inovador voo a partir de bases da tradição, seguramente não irão muito longe. Não vão acrescentar nada a nada. Enfim, nada se faz se não se faz em continuidade a alguma coisa”.

II.
As palavras de Cícero, passados dois mil anos, ainda nos dizem muito sobre a arte de envelhecer:

“Conta-se que Mílon fez sua entrada no estádio de Olímpia carregando um boi sobre os ombros. O que vale mais? Ter esse vigor físico ou aquele, inteiramente intelectual, de Pitágoras? Em suma, usemos tal vantagem quando a tivermos e não a lamentemos quando ela desapareceu. Acaso os adolescentes deveriam lamentar a infância e depois, tendo amadurecido, chorar a adolescência? A vida segue um curso muito preciso e a natureza dota cada idade de qualidades próprias. Por isso a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos, a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo.”

III.
Um lembrete de Goethe:

“Uma pessoa deveria ouvir um pouco de música, ler um pouco de poesia, e ver um bom quadro todo dia da sua vida para que as preocupações mundanas não apaguem o sentido do belo que Deus implantou na alma humana.”

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11. Pensamentos ~ Bando 2

I.
Rótulos são os quebra-molas da leitura.
Você pode passar por cima, mas é prudente ir devagar.

II.
A poesia é um aforismo com roupa de baile.

III.
Ao homem com fome não basta ter os ingredientes,
é preciso visualizar a refeição e comê-la.

IV.
Acompanhar política é um mal necessário. É como conferir se o capitão do Titanic não está bêbado – e acelerando em direção ao iceberg.

V.
O povo venezuelano está em uma relação abusiva com seu governo. A nós, vizinhos, resta escutar os gritos de socorro na madrugada…

VI.
A única diferença entre apertar uma tecla na urna esperando que um político resolva nossos problemas e escrever uma cartinha para o Papai Noel, é que, geralmente, o bom velhinho cumpre as expectativas.

VII.
Revisitar os clássicos é como mergulhar em águas cristalinas durante a pausa de uma longa caminhada sob o sol de verão.

VIII.
Pagar boleto molda caráter.

IV.
O ideal não vale um real.

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10. Pensamentos ~ Bando 1

I.
A cobrança é uma víbora
que se desdobra
em nossa mente.
~
Uma serpente cara
que nos cobra
o presente.

 

II.
Amor, não estamos a sós
o tigre do amor cuida de nós.

 

III.
braços de orfeu

poeta não tira soneca
tira soneto.

 

IV.
para Goethe e Adler

A bela arte é como
uma boa noite de sono.
Nos revigora. Nos acalma.
Alimenta e descansa a alma.

 

V.
Na mesma árvore
em que brota o fruto saboroso
cresce a raiz amarga.

(Não descarte o todo por suas partes).

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9. Sobre as anotações em livros

O Bruno Magalhães, em seu canal no Youtube fez um chamado para que seus expectadores respondessem a duas perguntas sobre anotações de leitura.

Por que você sente necessidade de anotar durante as leituras?
Qual a função que as anotações tem no seu aprendizado?

Respondi lá no próprio vídeo, mas deixarei registrada as respostas aqui também.

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Antes de responder, primeiro gostaria de agradecer o excelente conteúdo canal. Sou um dos muitos espectadores silenciosos.

Tuas perguntas me lembraram um texto do Mortimer Adler, How to mark a book (1942).

A passagem onde o Adler nos faz encarar um livro como um alimento, não como um mero objeto, me marcou bastante.

“Existem duas maneiras de possuir um livro. A primeira é a direito de propriedade que você adquire ao comprá-lo, assim como você paga por uma roupa ou um móvel. Mas este ato de compra é apenas o prelúdio da posse. A apropriação só se torna completa quando você faz do livro parte de você, e a melhor maneira de fazer isso acontecer é escrevendo nele. Podemos ilustrar da seguinte maneira: você compra um bife e o transfere da caixa de gelo do açougueiro para a sua própria, no entanto, você não se apropria até consumí-lo e fazê-lo chegar até sua corrente sanguínea. Eu argumento que,  livros,  também devam ser absorvidos pelo nosso sangue pra que posso te fazer algum bem.”

– As respostas –

1° – Por que você sente necessidade de anotar durante as leituras?
R: Para registar os tesouros encontrados. Como num mergulho no mar em busca de pedras precisas, uma leitura edificante é marcada pela quantidade e qualidade das jóias encontradas. As anotações são um mapa para voltar à expedição.

2° – Qual a função que as anotações tem no seu aprendizado?
R: Servem tanto para reativar a memória da passagem, quando para facilitar futuras citações e consultas.

Grande abraço e boa semana!

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8. Desculpa qualquer coisa

Todos nós carregamos uma mochila invisível de sentimentos. E em algum momento da vida ela estará pesada demais para prosseguirmos. Vasculhar o estoque de sensações e lembranças que carregamos em nosso corpo e mente é um convite para iniciarmos um solitário e silencioso processo de faxina emocional.

Foi durante um desses bota-fora emocionais que me dei conta que carregava um trambolho do peso de um trem: as culpas.

Sem saber o que fazer com as culpas que carreguei por tanto tempo, me vi diante das duas únicas soluções aparentes: ou as botava na mochila invisível de outra pessoa, ou as assumia para mim.

Mas e se pudéssemos transformá-las em outra coisa?

Continuar →

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