Não alimente o monstro-lista

Por Ítalo Mendonça

Parei para pensar na quantidade de listas que fazia diariamente.
De convidados 
De compras
De tarefas a fazer
São tantas que poderia listá-las.

Quanto mais as fazia, menos vontade tinha de cumpri-las. É como se já acordasse com uma dívida, e quitá-las fosse o grande desafio do dia. Quando dou conta delas me sinto produtivo. Quando não, bate uma deprê. Pois a lista do dia seguinte começará maior do que o esperado.

Sem notar começava a alimentar um monstro.

monstro-lista

“Olar, alguém me chamou?”

O monstro-lista é um fardo que criamos com uma causa nobre: aliviar a nossa mente das coisas para lembrar ao longo do dia.

No começo ele é um parceiro. Marcamos um check nele e nos sentimos poderosos. A sensação de dever cumprido é prazerosa. Próximo item. Check!

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Não são nem quatro da tarde e já marquei todos os checks do dia. Essa deveria ser a hora em que o monstro-lista volta para o seu repouso, e eu, em dia com os afazeres, me liberto para fazer aquilo que gostaria de ter feito desde a hora em que levantei. Como faltam duas horas para voltar para a casa, engordo o monstro com mais dois itens, que nem eram tão importantes assim. No fim, marco um check-e-meio, que terminarei de resolver amanhã.

Chego em casa e listo coisas banais.

[ ] Arrumar quarto.
[ ] Lavar roupa.
[ ] Tirar o lixo.

Sem perceber, alimentei outro monstro.

Vejo os indicados ao Oscar deste ano. Coloco dois deles na lista de filmes-para-assistir-antes-de-morrer. Provavelmente nunca os verei. Mas estão lá, engordando a fera insaciável.

O dia nem acabou ainda e já são três monstros. Somados com os de ontem – e os de amanhã – são muitos. Não deveriam ser.

"Ei! Joga mais itens nessa lista. Tá pouco."

“Ei! Joga mais itens nessa lista. Tá pouco.”

Me consumiam ao ponto de me deixar mais preocupado em fazer checks do que resolver minha vida. Quando vi, estava incluindo itens quaisquer, só pra ter a sensação de que estava sendo produtivo. Gastava mais tempo fazendo listas do que as resolvendo. O monstro já não era mais um parceiro. Virou um parasita.

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Ao sentir que precisava mudar minha relação com as listas, comecei algumas reflexões e experimentos até que encontrei formas de lidar com o problema:

1 – Só listar o que é essencial.

A maioria das coisas de uma lista só está lá porque parece ser legal, ou porque estamos empurrando com a barriga algo que resolveríamos em menos de 2 minutos. Um bom exercício para ajudar a descobrir o que é essencial é imaginar que temos apenas 1h por dia para resolver nossas pendengas. O que entraria nesta lista? Seja sincera(o) e criteriosa(o), ok?

2 – Não acumule itens dos dias anteriores.

Se um item precisou ser adiado para o dia seguinte, tenha em mente que para ele entrar, outro terá que sair. Ah, desconfie desse tipinho aí! Talvez ele nem seja tão importante assim…

3 – Reduzir todas as listas a, no máximo, 3 itens.

Listas grandes dão preguiça. Enxugue o máximo que conseguir. Você é capaz de listar as tarefas essenciais do dia em apenas um post-it? Não? Vish… Cuidado, você está alimentando o monstro.

Se você se identifica com os dilemas que citei, sinta-se à vontade para puxar uma conversa sobre o tema (italomen@gmail.com).

E aí, o que você tem feito para domar os seus próprios monstros-lista?

gremlins4

“Eu não sou mau. Só preciso de carinho.”

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Créditos:

Este post contou com a revisão cuidadosa da Clara Cruz.

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Este texto faz parte da Série: confins,
criada para explorar temas que inspiram uma vida mais leve.

Textos da série:
1. Não alimente o monstro-lista.
2. Precisamos mesmo encarnar o advogado do diabo?
3. Sobrevivendo à avalanche de informação.
4. Ironia & Sarcasmo, vocês estão nos atrapalhando!
5. Desculpa qualquer coisa

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Ítalo Mendonça