Ironia & Sarcasmo, vocês estão nos atrapalhando!

Por Ítalo Mendonça

No seu mundo interior
Os seus amigos ironizou
Não tinha dó nem piedade
Pensava que arrasou

Queria se achar o tal
Mas ele se passou

Não faz muito tempo, dizer o que se pensava poderia fazer de você um criminoso, eventualmente te levar à cadeia – ou à fogueira.

Em lugares onde a repreensão à livre expressão é mais pesada, artistas e rebeldes precisam recorrer a recursos de linguagem para contornarem a censura. Entre metáforas, eufemismos e hipérboles, dois recursos retóricos se entranharam na forma como conversamos:

a ironia &  o sarcasmo.

Aparentemente inofensivos, esses dois trastes estão corroendo os nossos diálogos – principalmente os diálogos online. Isso é tóxico e precisa ser contido.

Ironia & sarcasmo“Tão óbvios como japonês em braile, e tão úteis como cisos tortos.”

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Vivemos tempos opostos à censura. Podemos ser diretos e francos. Mas ainda optamos pela conversa com entrelinhas, alfinetadas e críticas veladas. Talvez pelo medo do embate, escolhemos apenas deixar no ar o que queremos dizer.

– E aí, gostou do filme?
– Olha, sei que você curte filme cult mas esse aí ficou ó, uma maravilha, se é que me entende.
– Bom, também, de um fã de filme de super-herói não dá para esperar um comentário mais elaborado hehe
– Uhh, falou o crítico de cinema. Desculpa aí, Tarantino…

O que era pra ser apenas uma tirada bem-humorada abre brecha para uma conversa agressiva, onde o assunto inicial é o que menos importa. Agora o diálogo não é mais uma troca de ideias, virou uma questão de honra: ou saio por cima, ou saio humilhado.

Ser irônico é zombar de alguém ou de alguma coisa, para obter uma reação do leitor, ouvinte ou interlocutor. A ironia convida o leitor ou o ouvinte a refletir sobre o tema e escolher uma determinada posição.

Já ser sarcástico tem um intuito quase cruel, pois muitas vezes o comentário é disparado com o objetivo de ferir a sensibilidade da pessoa que o recebe.

A diferença entre esses conceitos está no fato de que o sarcasmo é mais provocador, enquanto a ironia é uma contradição voluntária, menos áspera e feroz.

Ironia & sarcasmo“Era só uma brincadeira… Cadê seu senso de humor?”

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Não há mal em usar a ironia e o sarcasmo. O problema está em tê-los como únicos recursos de diálogo. É muito fácil uma conversa deste tipo descambar para ofensas e insultos pessoais. O que deveria ser uma pitada de humor transforma-se num ruído maior do que a essência da mensagem. Basta entrar em caixa de comentários sobre assuntos políticos e comprovar essa triste realidade.

Seria contraditório desejar a abolição desses recursos linguísticos, uma vez que eles servem justamente para burlar censuras. Mas isso não nos impede de repensarmos a forma como os usamos. Podemos começar assim:

1. Resgatando a essência filosófica da ironia
Existe o conceito de ironia socrática, que se refere a uma das técnicas integrantes do método socrático. Nesse caso, não se trata de ironia no sentido atual da palavra. Ironizar consistia em simular ignorância, fazendo perguntas e fingindo aceitar as respostas da outra pessoa, até que esta chegasse a uma contradição e percebesse os erros e limitações do próprio raciocínio.

Quando queremos estimular o debate, a ironia é uma ótima ferramenta. Quando a usamos para forçar uma contradição no discurso do outro, de modo a criar uma dicotomia “certo vs. errado” e “bom vs. mau”, não estamos sendo justos com o intuito pedagógico da ironia.

2. Estimulando conversas construtivas.
Pense duas vezes antes de ser sarcástico. Qual a necessidade de atacar a outra pessoa? Podemos discordar sem nos agredir verbalmente. Quando nos depararmos com opiniões contrárias às nossas, tentemos entender a linha de raciocínio do outro, e perguntar, com detalhes, por que a pessoa acredita no que está afirmando. Com a guarda baixa toda conversa tem algo a nos acrescentar.

3. Oferecendo críticas objetivas e francas.
Não somos ensinados a receber e nem a oferecer críticas. Geralmente as tomamos como uma intervenção violenta e mal-intencionada. Por isso a ironia e o sarcasmo caem como uma luva. São formas veladas de criticar algo ou alguém. Experimente fazer o contrário: falar de forma direta o que pensa sem transformar a crítica numa humilhação ou punição, e receber feedbacks sem levá-los para o lado pessoal. Temos muito a aprender com a comunicação não-violenta.

Que tal começar hoje?

Ironia & sarcamo, segurem a onda “Vocês dois! Quando eu os chamar é porque quero deixar a conversa descontraída, e não o clima pesado. Entenderam? Segurem a onda…”

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Créditos:

Este post contou com a revisão cuidadosa da Clara Cruz.

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Este texto faz parte da Série: confins,
criada para explorar temas que inspiram uma vida mais leve.

Textos da série:
1. Não alimente o monstro-lista.
2. Precisamos mesmo encarnar o advogado do diabo?
3. Sobrevivendo à avalanche de informação.
4. Ironia & Sarcasmo, vocês estão nos atrapalhando!
5. Desculpa qualquer coisa

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Ítalo Mendonça