Desculpa qualquer coisa

Por Ítalo Mendonça.

Todos nós carregamos uma mochila invisível de sentimentos. E em algum momento da vida ela estará pesada demais para prosseguirmos. Vasculhar o estoque de sensações e lembranças que carregamos em nosso corpo e mente é um convite para iniciarmos um solitário e silencioso processo de faxina emocional.

Foi durante um desses bota-fora emocionais que me dei conta que carregava um trambolho do peso de um trem: as culpas.

Sem saber o que fazer com as culpas que carreguei por tanto tempo, me vi diante das duas únicas soluções aparentes: ou as botava na mochila invisível de outra pessoa, ou as assumia para mim.

Mas
e se pudéssemos
transformá-las em
outra coisa?

“Me inclui fora dessa. Não tenho nada a ver com isso!”

“Me inclui fora dessa. Não tenho nada a ver com isso!”

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Fugimos da culpa como o diabo foge da cruz. Aliás, para alguns, a culpa é o flerte com o próprio capiroto.

No sentido religioso, a culpa é um ato de uma pessoa receber uma avaliação negativa da divindade, por transgredir um tabu ou uma norma religiosa.
Wikipedia, Culpa (sentimento)

Mas podemos olhá-la com outras lentes.

Matéria-prima para a psicologia, a culpa pode ser encarada como uma frustração causada pela distância entre o que não fomos e aquilo que achamos que deveríamos ter sido. Ou seja, ela surge quando violamos nossa consciência moral pessoal.

Definimos nossos parâmetros de moralidade por influência da nossa família ou por medo de um castigo divino. Então, passamos uma vida inteira preocupados em agradar alguém que nos vigia invisivelmente. E quando achamos que pisamos na bola, a maldita sensação ecoa, ad infinitum, em nossas mentes.

Lidar com a frustração é tão difícil quanto segurar uma batata-quente. Nossa primeira reação é a de expelir tal sensação. Seja culpando outra pessoa ou nos desculpando por algo.

A transformação inicia quando reconhecemos a maneira como agimos. Somos do tipo que empurra ou que absorve a culpa?

Descobrir nosso perfil não é difícil. Qual das seguintes situações você protagoniza com mais frequência?

Situações 1:
“Falei para não ir. Agora ele que assuma a culpa pelo que fez.”
“Minha parte eu fiz. A culpa não é minha.”
“Não vou falar com ela. Ela me deve um pedido de desculpa antes.”

Situações 2:
“Desculpa o atraso. Fiquei preso no trânsito.”
“Desculpa incomodar a conversa de vocês. Tenho um recado importante.”
“A culpa é minha. Eu deveria ter avisado para ele não ir.”

As situações 1 são uma amostra de quando estamos na defensiva. Quando relutamos em assumir a responsabilidade pelo que fazemos, e então acabamos não reconhecendo nossas próprias fragilidades e impotências.

Já as situações 2 mostram como podemos nos inferiorizar diante de outra pessoa. Como se estivéssemos em dívida por sermos nós mesmos.

“Sou um desastre. Estraguei tudo de novo…”

“Sou um desastre. Estraguei tudo de novo…”

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Não precisamos exorcizar a dupla culpa & desculpa do dicionário. Mas é importante repensarmos a forma como as usamos, para colocá-las a favor de relacionamentos mais empáticos com quem nos cerca.

O ponto de partida para as mudanças envolve as seguintes reflexões:

1. Fim da cultura de culpabilização.
Vivemos em uma sociedade que culpa e silencia diariamente as pessoas ao nosso redor, e quem mais sofre com isso são as mulheres. Como homem, meu desafio diário é o de ter consciência dessa desigualdade e lembrar as mulheres ao meu redor que elas não precisam se sentir culpadas por existir. Não precisam pedir desculpa antes de começar a falar. E que são livres para ir, vestir e falar o que quiserem. Deveria ser óbvio, mas é só ler os comentários de portal de notícia para ver o tamanho do desafio que temos pela frente.

2. Reconhecer sua parcela de responsabilidade por aquilo que te acontece ou deixa de acontecer.
Passar o tempo todo culpando alguém é abrir mão do controle da própria vida. Por mais difícil que seja contornar algumas situações injustas, já dizia Mafalda: “justo a mim me coube ser eu!”, ou seja, os nossos problemas não irão se resolver sozinhos. E se ver como parte da solução é tomar para si o protagonismo da própria história.

3. Desculpa como um sinal de abertura para o diálogo.
Volta e meia a gente pisa na bola com pessoas queridas. Mas tudo bem, todo mundo vacila. Na próxima vez que precisarmos pedir desculpa, vamos usá-la como um sinal de “paz e amor✌️, bora conversar sobre o ocorrido” e não como uma forma de absorver tudo para si. Ficar se martirizando é pesado demais – e ainda pode nos dar uma úlcera, no mínimo.

Então, sempre que a mochila invisível estiver muito pesada, esparrame tudo pelo chão e lembre-se da Bela Gil:

“Você pode substituir a palavra culpa por responsabilidade, por exemplo.”

Sua vida ficará mais leve. E a das pessoas que você ama também.

“Deu ruim, admito. Mas como podemos resolver essa situação juntos?”

“Deu ruim, admito. Mas como podemos resolver essa situação juntos?”

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Créditos:
Este post contou com a revisão cuidadosa da Clara Cruz.

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Este texto faz parte da Série: confins,
criada para explorar temas que inspiram uma vida mais leve.

Textos da série:
1. Não alimente o monstro-lista.
2. Precisamos mesmo encarnar o advogado do diabo?
3. Sobrevivendo à avalanche de informação.
4. Ironia & Sarcasmo, vocês estão nos atrapalhando!
5. Desculpa qualquer coisa

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Ítalo Mendonça