Sobrevivendo à avalanche de informação

Por Ítalo Mendonça.

“Boa noite” – anuncia a âncora.

Perplexo diante da tragédia noticiada no telejornal, entro numa rede social para relaxar a mente.

Entre uma imagem e outra, pipoca mais um escândalo político. Leio, comento, provoco e sou provocado. Pesquiso qualquer coisa que valha como resposta, de preferência uma reportagem de um grande portal de notícia. Encontro-a logo na inicial. Na notícia ao lado: O camisa 10 do Flamengo está fora da próxima partida porque queimou o pé numa moto ao voltar de um baile funk!

Como assim?”
Clico, leio, balanço a cabeça. Leio os comentários. Rio do meme.

Plin! – Novo e-mail.
Pode ser importante.
Não é.

Aproveito que estou com o celular na mão e começo a ver o vídeo que compartilharam no grupo do Whatsapp.

São duas e meia da manhã. Perdi o sono.
Perdi também o controle sobre o consumo de informação.

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O impulso de estar por dentro dos últimos acontecimentos somado à crença de que é preciso ter opinião sobre tudo estava me deixando cada vez mais ansioso.

Ou mudava meus hábitos, ou seria engolido por uma avalanche de informação.

“Você tem: 485 e-mails não lidos; 8 notificações e 5 livros pela metade. Atualize-se!”

Basta! Não quero aproveitar meus momentos de tempo livre atendendo a uma demanda infinita de solicitações. Talvez você não queira também.

Comecei a me questionar se valia a pena continuar exposto ao excesso de informação. Descobri que não.

Não precisava assistir à televisão e ler jornal para saber o que acontece ao redor. Me surpreendi por não sentir falta do Whatsapp. Instagram e Twitter se revelaram dispensáveis. O Facebook passou por uma rigorosa faxina digital. Faxina que também acontece com frequência na caixa de entrada do e-mail.

Ao tomar as rédeas da qualidade e quantidade de informação que consumia, notei que surgiam espaços em meu dia para atividades criativas. Deslocava aos poucos minha energia de consumidor passivo para criador ativo.

Ciente da força devastadora que o excesso de demandas causava em minha vida, notei que precisava lidar com um desafio diferente: minha própria cobrança desenfreada de adquirir novos conhecimentos.

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Em algum momento da história da humanidade, a informação deixou de ser apenas uma ferramenta que nos ajuda a obter conhecimentos úteis e passou a ser um item de ostentação intelectual. Quanto mais acumulamos saber, maior nossa reputação em ambientes sociais.

Desde cedo aprendemos a assimilar o máximo de informação possível em nossa mente. Sem uma conexão com o cotidiano, muitos dos conhecimentos adquiridos se transformam em cacarecos teóricos. Uma pilha de saber não aplicado que inibe a realização daquilo que desejamos criar.

“Li uns livros sobre o assunto. Já tenho um plano. Agora posso perseguir minha idealização.” - Lamento informar: perdeu tempo.
“Fui ler uns livros sobre o assunto antes de começar o novo desafio. Agora tenho um plano, mas perdi a vontade de prosseguir: parece muito difícil.”

Estocar informações não nos dá vantagens para resolver problemas reais. Se o que sabemos não está a serviço do que praticamos,  esse saber é inútil. O aprendizado precisa se relacionar com quem somos hoje, e não alimentar a fantasia do que gostaríamos de ser.

Essas conclusões abriram as portas para outras descobertas transformadoras:

1. Aprender só o que dá prazer.
Sejamos mais rigorosos ao buscar um novo conhecimento. Aceitemos o convite de aprender apenas aquilo que se liga com nossas paixões e nosso dia-a-dia.

2. Ler menos para ler melhor.
Metas de leitura fazem parte do grupo de promessas que fazemos no ano-novo. Todo ano. A culpa por não ler o quanto gostaríamos se reflete numa rápida busca no Google.

Como ler mais” – Aproximadamente 33.800 resultados
Como ler menos” – Aproximadamente 424 resultados

Mas que raios de cobrança é essa?
Vamos para uma olimpíada de leitura? Não vamos. Então podemos ir mais devagar.

Proponho um exercício:

Ler se quiser. E, se der vontade, ler como quem degusta uma sobremesa pós-almoço de domingo. Saboreando as palavras. Conversando com o livro. Buscando nele inspiração para nossas criações cotidianas.

Bon appétit!

“Sou um pouco ansioso, admito, mas tudo bem se você não atender a minha demanda por atenção. Estarei aqui quando precisar de mim. Com carinho, Infomonstrão.”
“Sou um pouco ansioso, admito, mas tudo bem se você não atender a minha demanda por atenção. Estarei aqui quando precisar de mim. Com carinho, Infomonstrão.”

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Créditos:

Este post contou com a revisão cuidadosa da Clara Cruz.

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Este texto faz parte da Série: confins,
criada para explorar temas que inspiram uma vida mais leve.

Textos da série:
1. Não alimente o monstro-lista.
2. Precisamos mesmo encarnar o advogado do diabo?
3. Sobrevivendo à avalanche de informação.
4. Ironia & Sarcasmo, vocês estão nos atrapalhando!
5. Desculpa qualquer coisa

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Ítalo Mendonça