Precisamos mesmo encarnar o advogado do diabo?

Por Ítalo Mendonça

Por alguns séculos existiram pessoas designadas pela igreja a confrontar com ceticismo os novos candidatos a santo. Procurar falhas no argumento e inconsistências nas provas: essas eram as funções do promotor da fé, conhecido popularmente como advogado do diabo.

Esse peculiar ofício foi abolido em 1983. Seu legado, não.

Ao lembrar a última conversa em que uma pessoa, subitamente, resolveu defender um ponto de vista em que não acreditava, apenas para testar um argumento, fiquei incomodado. Ela queria parecer zelosa. Soou traiçoeira.

Costumava fazer o mesmo. Comigo e com os outros. A preocupação em excesso com planos detalhados me travava. O medo do incerto me fazia assumir uma postura defensiva. Por reflexo, criticava com acidez qualquer ato de mudança. Estava cego para o novo.

Encarnava ali o papel do advogado do capiroto.

“entendo… Mas se me permite, deixe eu azedar o seu patê…”

“Entendo… Mas, se me permite, deixe-me azedar o seu patê…”

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Não notava o quão venenoso era esse comportamento, até que, durante o primeiro ano de faculdade, uma conversa com um amigo me fez despertar:

— Ei, tá tudo bem contigo? Tô te sentindo meio preocupado – perguntei.

— Pois é… Recebi uma notícia importante hoje. Fui aprovado no programa de intercâmbio. Tenho até semana que vem pra decidir se me mudo.

— Sério? Não sabia que você estava querendo sair daqui. Já pensou com calma no assunto? Não é muito cedo pra tomar a decisão de largar o curso? Vai receber bolsa? E o auxílio-moradia? Pense bem…

Escutei o que precisava ouvir:

— Cara, se for pra continuar me botando mais dúvidas, nem continua. Não preciso de mais gente me dizendo pra ficar. Quero alguém que me diga pra ir! Alguém que confie na minha capacidade de resolver meus problemas. Alguém que escute a voz do meu desejo. E o que eu desejo é ir pra lá.

Putz! Eu estava sendo um amigo de merda. Todos os motivos que eu apresentei eram, na verdade, medos meus. Todas as justificativas eram preocupação em excesso.

A partir daquele dia, algumas fichas começaram a cair.

“Não! Eu não preciso das tuas mil ponderações.”

“Não! Eu não preciso das tuas mil ponderações.”

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Esse episódio me trouxe aprendizados para a vida toda. Quando meu advogado-tinhoso interior ameaça despertar procuro me lembrar do que aprendi:

1. Apenas as preocupações genuínas merecem ser ditas. Falar tudo o que vem à mente não é sinônimo de sinceridade. Depois que descobri que minha escuta é mais valiosa que minha fala, minhas intervenções mudaram de foco. Menos “eu acho”, mais “como você se sente em relação a isso?”.

2. Não precisamos planejar tudo nos mínimos detalhes. Nem todas as perguntas precisam de resposta imediata.

O Manifesto Ágil foi certeiro ao sugerir:
“Responder a mudanças mais que seguir um plano.”

Embora essa frase tenha sido pensada para o contexto de desenvolvimento de software, a essência dela se aplica em momentos do nosso cotidiano. A dicotomia entre Planejar & Fazer acaba nos travando. Quando descobri que a equação da vida tem outros dois elementos – o Medir e o Aprender – escutei um click! Era o sinal de que havia descoberto um ciclo virtuoso.

Planejar o essencial > Fazer o que importa > Medir o impacto > Aprender com os erros e acertos para > Planejar o essencial…

Entrar no ciclo não significa pensar nos mínimos detalhes, e nem agir impulsivamente. É sentir-se em constante transformação.

Nosso advogado do diabo inibe a transformação de quem está ao nosso redor. Não precisamos encarná-lo.

diabo-pirando-cabeção

“Relaxa, aí amigão. Não precisamos prever todas as possibilidades.”

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Créditos:

Revisão cuidadosa por: Clara Cruz.

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Este texto faz parte da Série: confins,
criada para explorar temas que inspiram uma vida mais leve.

Textos da série:
1. Não alimente o monstro-lista.
2. Precisamos mesmo encarnar o advogado do diabo?
3. Sobrevivendo à avalanche de informação.
4. Ironia & Sarcasmo, vocês estão nos atrapalhando!
5. Desculpa qualquer coisa

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Ítalo Mendonça